Crítica | Bailarina
Lute como uma garota: Ana de Armas brilha em Bailarina, spin-off de John Wick que entrega ação intensa e protagonismo feminino marcante.
No universo implacável de John Wick, onde a violência é coreografada com a precisão de um balé sangrento, Bailarina chega aos cinemas com uma pergunta nas entrelinhas: é possível dançar essa guerra com outra protagonista — e, mais ainda, com outros ritmos? A resposta, apesar das rachaduras visíveis, é um sim quase unânime.
Ana de Armas entra em cena como Eve, e o que poderia ser apenas mais um spin-off genérico, ganha força quando a câmera e o conflito param de girar em torno de John Wick e finalmente a deixam dançar sozinha.
Desde os seus poucos minutos em 007 – Sem Tempo Para Morrer, Ana de Armas já mostrava que estava pronta para ação e mais. O público pediu e Bailarina entrega esse mais, com sequências de ação que fazem jus à franquia: precisas, imersivas, inventivas. Eve, sua personagem, tem um passado sombrio; o assassinato de seu pai e a criação no orfanato letal da Ruska Roma, que serve de combustível para a jornada de vingança. É um enredo básico, já visto mil vezes. Mas o diferencial aqui é que o foco não está na motivação, e sim na maneira como ela se move, luta e resiste.
A própria estrutura do filme tenta justificar sua posição na linha do tempo da franquia. As conexões com personagens como Winston (Ian McShane), Charon (Lance Reddick) e até o próprio John Wick surgem mais como “fan service” do que necessidade narrativa. Mas Bailarina sobrevive ao seu universo justamente quando se desloca dele, quando entende que a missão não é reencenar John Wick com uma protagonista feminina, mas dar espaço para outra linguagem corporal, outro tipo de heroísmo – e outra estrela.
Ainda assim, a transição não é completamente suave. O filme carrega marcas de bastidores complicados: originalmente dirigido por Len Wiseman (de Anjos da Noite e da refilmagem esquecível de Total Recall), o projeto teria sido salvo às pressas por Chad Stahelski, diretor dos filmes principais da franquia, que regravou boa parte do material. E sim, isso se nota. O ritmo oscila, há momentos desconexos e personagens que entram e saem sem deixar impacto, como os vividos por Norman Reedus e Catalina Sandino Moreno.
O roteiro falha em dar substância a figuras secundárias, e por vezes trata o trauma de Eve de forma quase protocolar. A ausência de humor, uma marca tão saborosa dos três primeiros filmes de John Wick, também pesa aqui. A leveza que antes equilibrava o absurdo da violência estilizada cede lugar a um tom mais grave, que não encontra sempre ressonância com a presença cativante de Ana de Armas.
Mas se o enredo escorrega, é Ana de Armas quem segura tudo. Fisicamente preparada, emocionalmente entregue e carregada de carisma, ela transforma cada sequência de ação em um espetáculo de entrega corporal. Como Keanu Reeves faz na franquia original, Ana também entendeu que a saga exige mais do que cara feia e mira certeira, exige presença. E nesse ponto, ela supera expectativas. Quando John Wick finalmente surge (sim, ele aparece), é apenas para reafirmar: a bola agora está com ela.
É simbólico que o duelo final envolve um lança-chamas — metáfora perfeita para o poder destrutivo e purificador que ela carrega. Eve não é uma cópia feminina de John Wick. Ela é outra coisa. Mais trágica, talvez. Mais bruta, mais silenciosa, mais carregada de ausência. E isso, por mais que o filme hesite em explorar por completo, já é um passo relevante para o futuro da franquia.
Bailarina não reinventa a fórmula, mas abre caminho para que o universo John Wick se expanda por outros corpos, outras trajetórias e outras linguagens. Mesmo com os tropeços de produção e um roteiro que às vezes não sabe o que fazer com suas próprias ambições, o filme acerta ao dar protagonismo a uma mulher sem depender da moldura masculina para validá-la. O legado de Baba Yaga pode, enfim, respirar por novos pulmões.
Que venha o próximo passo. Porque se for para lutar como Eve, então sim; lutar como uma garota nunca pareceu tão poderoso.


